"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

CREIO, EXATAMENTE PORQUE É ABSURDO...

Meus correspondentes em Londres me informam que na semana passada um ateu foi preso na periferia de Madri e condenado a um ano e dez meses de prisão. Motivo: interrompeu um batizado coletivo de crianças e (exatamente na hora em que os beatos declaravam ao padre que ACREDITAVAM em algo, por mais absurdo que fosse) começou a gritar: NÃO CREIO! NÃO CREIO! As testemunhas, a polícia e o próprio servo de Deus disseram que, além dessa blasfêmia, o ateu Raul C.P. chamou o batizador de “homo afetivo” e o mandou se foder.

Só quem já viveu na Espanha pode imaginar a repercussão que esse fato deve ter tido na comunidade em geral, mas principalmente nos porões da Opus Dei. A Espanha, Portugal e Itália são os países europeus mais infectados por religiosidades. Apesar da beleza, da história, dos vinhos e da modernidade aparente, a vida privada e íntima naqueles países guarda muito do catastrofismo medievo e das choradeiras das catacumbas. É curioso que proíbem em coro o consumo de álcool, de crack, de cocaína, de maconha, o roubo, a infidelidade, a corrupção, o estelionato, o “caixa-dois” o canibalismo, a eutanásia, que proíbem dirigir bêbados, jogar lixo nas ruas etc, mas deixam qualquer demente inventar solenemente uma religião, abrir um templo e dopar ao bel prazer a seu rebanho. Sim, é curioso que o tabu da “liberdade de crença” ainda não tenha sido visto como um dos maiores absurdos civilizatórios, ele que dá legitimidade a todo tipo de crapulices e que coloca em risco, descaradamente, a integridade mental de nossas crianças.

Ezio Flavio Bazzo

4 comentários:

  1. Interessante seu texto. Já tive a chance de conhecer a Espanha, realmente um país muito bonito, a população como todo tem um bom padrão de vida, mas uma coisa que constatei que independente de onde vivamos o homem é o mesmo.

    Por lá, ouvindo as rádios, vi que é "comum" o preconceito e atitudes violentas contra homossexuais, vi um país afundado na liturgia ortodoxa da igreja, que ainda se acha a dona da verdade universal.

    No fim viver aqui ou lá é praticamente a mesma coisa, só muda que lá se ganha em Euro.

    Em relação o atéu que disse não crer, achei absurdo ele ser preso, mas também estúpida a reação dele frente as crendices populares. Nada impede de alguém crer ou não em algo, se alguém acha um ato estúpido que discurse a quem quer ouvir, pois o fazer numa igreja não vai fazer com que ninguém mude a forma de pensar.

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  2. Eis o mais lúcido dos ateístas, André Comte-Sponville, no magistral "O Espírito do Ateísmo":

    "Sinceramente, será que você precisa acreditar em Deus para pensar que a sinceridade é melhor do que a mentira, que a coragem é melhor do que a covardia, que a generosidade é melhor do que o egoísmo, que a doçura e a compaixão são melhores do que a violência ou a crueldade, que a justiça é melhor que a injustiça, que o amor é melhor que o ódio? Claro que não! Se você acredita em Deus, você reconhece em Deus esses valores; ou, talvez, você reconhece Deus neles. É a figura tradicional: sua fé e sua fidelidade andam juntas, e não sou eu que vou criticá-lo por isso. Mas os que não têm fé, por que seriam incapazes de perceber a grandeza humana desses valores, sua importância, sua necessidade, sua fragilidade, sua urgência, e respeitá-los por isso?"

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  3. a religião sempre foi a irmã incestuosa do estado.

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  4. Govento concede ‎11 bilhões de euros / ano para a Igreja Católica na Espanha, segundo estimativa de associação de ateus

    Isso daria 250 euros por habitante, crente ou não. Segundo eles, se o Estado não abrisse mão dessa soma em favor da Igreja, a população poderia ser poupada, por exemplo, do aumento da idade mínima para aposentadoria (que passa a ser de 67 anos no país).

    http://blogs.publico.es/shangaylily/2012/04/03/11000-millones-para-la-iglesia/

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