"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Atenção: "brechó" não tem nada a ver com "brecha" e nem com "brochô"

Sabemos que são antigos, mas parecem ter ficado verdadeiramente visíveis só lá pelos anos 60, depois da guerra do Vietnã. Aqueles uniformes imundos, coturnos sujos de sangue e casacões furados por balas usados pelos hippies etc. Grife da morte! Fashion lixo! No Brasil, um dos primeiros bricabraques foi instalado no RJ (séc.19) por um fulano chamado Belchior. Dizem que a palavra brechó vem de Belchior. Hoje é uma epidemia pelo mundo. E não são apenas sujeitos arruinados os seus clientes, há gente grã fina se acotovelando no meio daquelas porcarias. O casacão que me abrigou durante longos invernos pelo mundo afora – por exemplo – foi comprado por setenta ou oitenta francos na Braderie da Rue de Bretagne numa dessas lojas que Balzac classificava como as mais sinistras de Paris. “Nelas – escrevia o melhor escritor de todos os tempos – vêem-se os espólios que a morte ali jogou com sua mão descarnada. Nelas, pode-se ouvir o estertor de uma tísica sob um xale, bem como adivinhar a agonia da miséria sob um vestido de lamê dourado. Os debates atrozes entre o luxo e a fome estão escritos ali, sobre rendas levíssimas. Ali se encontra a fisionomia de uma Rainha sob um turbante de plumas cuja pose lembra e quase restabelece a figura ausente”.

Machado de Assis, em seu conto Idéias de Canário, também descreveu um desses negócios: “A loja era escura, - rabiscou o Bruxo de Cosme Velho - atulhada das coisas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas, que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio”.

As justificativas dos clientes que focinham alucinados por detrás dos cabides e que chafurdam naquela rouparia anônima vão das mais tolas e pueris às pura e simplesmente mercantilistas. Claro que não se poderia esperar deles nenhuma menção ou insinuação ao clima mórbido e escatológico que sempre predomina tanto na essência dos seres como no interior desses sarcófagos.

Ezio Flavio Bazzo

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