"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Um bairro para novos ricos edificado sobre um "Santuário de pajés"

Os corretores já estão eufóricos nas esquinas com mapas, folders, ilustrações futuristas, fichas de inscrições e claro, as tabelas de preços. O novo bairro que será construído para uma suposta elite sobre os barracos de sete ou oito famílias de índios e sobre uma área de Cerrado ainda virgem, levará o nome de Noroeste, mas bem que poderia levar o nome da dona daquela primeira casa noturna que se instalou aqui no Planalto em 1960. A área fica mais ou menos entre o Albergue da Juventude, o Parque Burle Marx e o Canil. Uma área preciosa onde depois das chuvas explode uma diversidade imensa de flores, de cogumelos e de pequenos animais voadores. O preço dos apartamentos? Oito a nove mil reais o metro quadrado. O que significa que um cubículo de sessenta metros quadrados custará R$: 600,000,00 e que um de cem metros quadrados custará R$: 900,000,00. Dizem que boa parte dos prédios já está vendida. Quem acredita que conhece tudo sobre o Mercado Imobiliário no mundo precisa passar por Brasília e visitar as cadeias voluntárias em que vivemos, com suas janelinhas idiotas, com seus quartinhos de manicômios e com seus banheiros que nos obrigam a cagar em pé. Cortiços que através de suas paredes nada discretas, ouve-se tudo o que dizem no andar de baixo, no do lado e no de cima. A intimidade aqui, logo aqui que todo mundo tem contra si (ou deveria ter) um processo no judiciário, é uma verdadeira indecência. Onde estão os engenheiros, os sociólogos e os arquitetos que autorizam a construção desses pardieiros? Onde se meteram as vacas sagradas da urbanística? Pois bem, muitas dessas gaiolas sem ar, que chegam a fazer 39 graus ainda antes do meio dia, custam mais de que muitos apartamentos confortáveis nos arredores de Paris. Com o preço de um apartamentozinho de bosta aqui nesta cidade se compra três em qualquer outro estado e de muito melhor qualidade. Apesar de isso ser uma afronta à saúde e à inteligência de qualquer babaca ninguém dá um pio. Está todo mundo feliz por poder comprar o seu em trinta ou quarenta anos, mesmo que depois tenha que dar o rabo nas esquinas para poder pagar as prestações e o condomínio. Que tenha sido construído num “Santuário de Pajés” e sobre os ossos de algumas famílias de Pankararus, Tuxás, Korubos etc, isto é apenas um detalhe – dizem os “empreendedores”. E os compradores, esses trouxas/gatunos e gatunos/trouxas não estão nem aí, fazem o jogo de qualquer máfia que venha prometer-lhes que, do anoitecer para o amanhecer subirão ao pódio da classe média alta e, mais tarde, talvez, até ao ducanato. Com o contrato do imóvel sob o braço aproveitam para passar numa revendedora de automóveis e comprar o seu em setenta meses. Estão felizes. Isto é a felicidade para esse tipo de idiotas. Sacam o celular do bolso do paletó (celular que custou dois mil dólares, mas que será pago em até doze vezes) e contam as novidades para outros trouxas. Estão realmente felizes, inclusive porque na semana passada compraram também, em longas prestações mensais, todos os eletrodomésticos que precisavam.Sarava!

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. Belo, Ezio...sou sua fã antiga!!!


    O SANTUÁRIO NÃO SE MOVE!

    VIVA O CERRADÃO!!


    Abraço forte
    Bic

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