"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A terra não é o play-ground, mas a privada do diabo

Nesta quinta-feira, antes das sete da manhã, lá estava o homem da máscara e das luvas brancas a minha espera. Achei que iria falar da gripe suína e do sucateamento dos hospitais, mas nem sequer me cumprimentou e foi logo vociferando: Que tal o Conselho de Ética? Quê despreparo! Quê atestado de incompetência generalizado! Que ignomínia! Quê asco ver aquele bando de engravatados dando corpo a uma mísera solenidade de bufoneria e a um tosco Tribunal de Impotência! Ninguém sabe nada! Ninguém consegue formular sequer um pensamento e muito menos uma tese. Aquilo perderia feio não apenas para os obscuros tribunais da inquisição, mas até mesmo para as querelas dominicais das meninas da zona de Planaltina. E isto, que são todos “bacharéis”, “juristas”, “criminalistas”, sujeitos de “reconhecido saber” em seus feudos. Somos um país essência e irresponsavelmente gerontocrático! Uma república de velhos, de cassados e de suplentes! E é impossível “encontrar entre nós um homem absolutamente notável que não seja cabotino”. Apesar do ufanismo ingênuo de alguns, caminhamos para uma sociedade de terceira ou de quarta categoria. A astúcia por um lado e a culpabilidade lusitana por outro lesaram gravemente nosso caráter e nosso Sistema Nervoso Central. Vendemos-nos por uma caixa de charutos, temos problemas graves com a linguagem, sacrificamos sistematicamente a ética em nome do moralismo e nossa imaturidade é tamanha que, mesmo aos setenta ou oitenta anos seguimos fazemos questão de insinuar e tagarelar que somos refinadissimos malandrins, com a alma no bolso e o risinho da cavação nos lábios. Sabemos há décadas – como escrevia João do Rio – que o trabalho honrado não dá fortuna a ninguém e que se não nos esganamos fisicamente, nos esfaqueamos e nos assassinamos moral e monetariamente a cada instante. Como era de se esperar, o mais bandido, o mais cruel, o mais patife é quem vence. E é a essa pantomima nojenta e a esse embuste que se insiste em chamar de República.

Disse tudo isso num fôlego só e antes de retirar-se, corrigiu parte da declaração que havia feito ontem: a terra não é o play-ground, mas a privada do diabo!


Ezio Flavio Bazzo

3 comentários:

  1. e... alguém se abilita a encara de frente tamanho cú apontado para nós? claro que não! pois há 100% de chace de que esse orifício diabólico prestes a nos merdear seja um lustroso espelho...

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  2. "...E é impossível “encontrar entre nós um homem absolutamente notável que não seja cabotino...”.

    Eu conheci alguns homens admiráveis que não eram cabotinos, mas que infelizmente não permaneceram por muito tempo na Administração Pública... Cientistas? Ideologistas? Gênios? Loucos? Sim, talvez disso tudo um pouco, mas o grande diferencial estava na modéstia de seus pensamentos e ações, designando um bom caráter, cuja única finalidade era o desenvolvimento da ciência como fato gerador do bem estar comum. Nenhum Einstein, nem político, apenas estudiosos que foram massacrados pela "sujeira" da Administração Pública.

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  3. é tudo uma merda só. Estamos todos fodidos desde o primeiro berro no berço.

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