"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 9 de agosto de 2009

Há sábados e domingos também na Capital da República

Quando chega a quinta-feira e os políticos voam para suas “bases” Brasília não fica jogada às traças e às moscas, como se pensa. Entram em cena outros sujeitos que, como aqueles, ludibriam, locupletam, enganam e distraem as massas. Há bebedeiras, fumaceira, shows, comilanças, rezas e putarias para todos os gostos. Neste sábado – por exemplo -, montaram na Esplanada dos Ministérios, bem em frente ao Museu da República, uma tenda da Igreja Mundial do Poder de Deus. Quem não foi lá para ouvir o pastor e ver a multidão perdeu a chance de vivenciar as Praças dos Milagres da época tenebrosa de Brueghel. A fala do pastor foi perfeita. Com um fundo musical melancólico e um texto melhor que o de Cioran e que o de Schopenhauer juntos, fez aquele rebanho de humildes, desgraçados e de desconfiados, com os braços levantados e os olhos fechados vislumbrarem uma centelha de esperança. Não no hoje e no agora, lógico, mas no amanhã e lá no Reino dos Céus. Fez literalmente cegos enxergarem, paralíticos saltarem de suas cadeiras, pessoas com tumores curarem-se na hora, bêbados amaldiçoarem a cachaça, surdos ouvirem etc. Desafiou o demônio por várias vezes (ouvi o Demo rugindo no interior de alguns devotos), falou do deserto espiritual (o qual todos haveremos de cruzar um dia) e implorou em lágrimas, ao Senhor para que curasse os diabéticos, os cancerosos, os deprimidos, os viciados, os despossuídos, os loucos e demais infelizes que ali estavam naquela manhã estupenda e ensolarada de sábado. Foi um show para divindade nenhuma colocar defeito. Entrementes, no Museu da República, um pouco mais tarde, houve um festival internacional de bonecos e lá no Templo Budista, além de umas adolescentes esqueléticas dançando música japonesa, uma concorrida soirée de glutoneria. Comer quatro Gyozas mergulhados no shoyu, com a lua atravessando o orbe, não lhes parece o maior dos luxos?

Ezio Flavio Bazzo

2 comentários:

  1. Luxo e chique, como diz, o representante máximo do País, Senhor Presidente da República:"é emprestar dinheiro para o FMI". O resto é o resto, pode até mergulhar no shoyu que nada mais importa. O "Senhor" e o "Pastor" inventaram o "Demo". Gyozas com muito shoyu é o que merecem.

    Marcio A. Barros

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  2. igreja mundial do poder de deus e templo budista! quanto multiculturalismo de negação do aqui, do agora e do acaso. porque negar nossos tesouros mais preciosos? e pior! sábado e domingo, os dois únicos dias da semana onde qualqquer miserável tem tempo livre para fazer o que bem entender da vida, lá vão eles, em manada, se entregarem ou ao cultivo do tédio e/ou ao cultivo da vitimização. uma vez alguém me disse: "veja somos produto do meio". tudo bem, e o que fazemos com isso? não há inocência. por falar nisso... que tal aquele espaço anacional do ecumenismo herético ereto, molhado ou lubrificado de nosso antiofício?

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