"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Brasília: Registros da hora crepuscular

Não é novidade que uma câmera fotográfica pode salvar-nos do tédio dominical em qualquer lugar do planeta. Aqui em Brasília, principalmente, onde a natureza e o próprio universo, apesar dos pesares, têm sido pródigos em coreografias, luzes e imagens. Enquanto o corpo do M. Jackson espera pelo espetáculo ignóbil que os abutres lhe reservam; enquanto o vírus da gripe suína se infiltra nas vísceras dos rebanhos; enquanto o Senado aguarda pela síntese e pelo esquecimento das aleivosias e das infâmias, o mendigo que dorme nos fundos do Ministério da Educação continua repetindo a todos que passam por ele esta dúvida de Montaigne: “haverá algo mais enfático, resoluto, desdenhoso, contemplativo, grave e sério do que um burro?” O domingo já está em fase terminal com o sol e a lua que marcham juntos e indiferentes por cima de nossas cabeças como se estivessem realmente cagando para nossas picuínhas e para o nosso mau caráter. O vento, as nuvens, as sombras, os brilhos, as folhagens, os reflexos, o concreto armado, a luz e tudo o que é visível conspiraram juntos na construção destas imagens que consegui capturar já em pleno crepúsculo.

Ezio Flavio Bazzo




2 comentários:

  1. Belas imagens! Olhando assim este entardecer num cenário tão singular como o é Brasília, quem poderia imaginar que esta beleza fosse capaz de abrigar a canalhice nacional. Eu também fico com o sábio-mendigo e o burro.

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  2. se me permites, gostaria de nomear tais belas e cruéis fotos de "a aurora da distopia". pois nos é um soco no estômago, ou um chute nos bagos, a beleza desse crepúsculo de utopias que é a esplanada dos ministérios.

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