"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Procuro cachorra de qualquer raça para relação fugaz


Tenho dois anos, sou um Lhasa Apso branco, dentes impecáveis, peso normal, me alimento com salmão e algas, tenho um latido potente e tomo banho em casa cada dez dias. Deixei de freqüentar os Pets porque percebi que os veterinários estavam querendo transformar-me num hipocondríaco e porque sempre voltava para casa com um ou dois casais de pulgas transitando por meu rabo. Posso dizer que apesar dos pesares, apesar dos 14 mil anos que estamos sendo obrigados a viver no interior da estrutura social humana, com redução cerebral e alteração de todos os sentidos vivo a maior parte de meus dias em estado Zen. Talvez não com a profundidade que viviam meus ancestrais tibetanos, mas quase. Cuido da casa onde vivo como se ela fosse uma réplica daqueles bangalôs encravados nas montanhas geladas do Himalaia. Meu único ódio é de um cachorro Labrador que mora aqui nas proximidades e que me atacou pelas costas sem motivo algum, e minha única angústia é a repressão sexual a que estou submetido. Com dois anos de idade e virgem! Isto é inadmissível! Não consigo arrumar uma cachorra com quem iniciar-me sexualmente. Em minhas caminhadas matinais e ao entardecer só tenho cruzado com cachorras problemáticas. Quando não são elas, são suas donas. Umas me mostram os dentes já de longe enquanto sua dona vai indagando: - é macho ou fêmea? Outras me deixam cheira-las e até lambê-las, mas quando menos espero me cravam os dentes encolerizadas. Outras foram esterilizadas, outras parecem múmias ambulantes, outras com fitinhas no pescoço e as unhas pintadas nem parecem de minha espécie. Na semana passada cruzei com uma cadelinha simpática e em cio, dei-lhe duas ou três lambidas e ela ofereceu-me de imediato seu tesouro, mas só até que sua dona, apavorada, uma daquelas mulheres abomináveis, arrancou-a bruscamente de meu alcance. Tão grande é meu atraso que já cheguei a cavalgar um poodle extremamente delicado achando que fosse uma fêmea. Ficou quieto, passivo e submisso até perceber minha pica cutucando seu traseiro. Então saltou vertiginosamente para um canteiro de bromélias e foi buscar socorro nas pernas de seu dono. Enfim, até agora nada. De todas as aberrações a que fomos submetidos até hoje nesse processo dito civilizatório, o mais grave para mim é esse aniquilamento de nosso instinto. Podem nos chamar de filhos, podem pintar-nos as unhas, nos colocarem fitinhas nas orelhas, escovar nossos dentes, limpar nossos ouvidos, lavar-nos com xampus, batizar-nos, colocar-nos para dormir entre as pernas de nossas donas, levarem-nos na coleira para lá e para cá, podem perverter-nos com todas essas frescuras neuróticas e fazer o que bem quiserem com nossa integridade animal, mas não podem privar-nos da sexualidade. E vejam que não estou sendo radical, muito exigente ou coisa parecida. Que nem estou exigindo uma Lhasa Apso com pedigree, para toda vida e com o aval da igreja e dos juízes. Não. Pode ser uma chihuahua, uma maltês, uma yorkshire, uma rottweiller e até mesmo uma guapeca dessas que acompanham os mendigos ou que dormem na porta dos açougues... e mais, apenas para uma relação fugaz...

Ezio Flavio Bazzo

2 comentários:

  1. que tal uma saluki? de pelos curtos no corpo com franjas longas. esguia, veloz e de boa visão de caça. conhecida no egito por el hor (a nobre). originária do irã e companheira dos beduínos. extremamente rara. retratada desde 3000 anos ac em pinturas rupestres. ofertá-la é prova de estima e consideração. eu mesmo a letrei na arte do kama sutra kanino. opa, acho que falei demais...

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