"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Brasília é uma festa


Você que mora aí nos confins do país tem razão sim em seguir acreditando que Brasília é uma Ilha de fantasia. O que você não sabe e precisa saber com urgência é que além das megalomanias explícitas do baronato local, existe também um rebuliço infernal de almas em desespero por aqui, desespero que interliga funcionários fantasmas à imprensa, às cirurgias criminosas, às inundações, ao viagra, às negociatas no Congresso, aos seqüestros relâmpagos e à cocaína, esse pó inocente que além de corroer o nariz da turba lota os ambulatórios de saúde mental. Também é bom saber que a dengue, a tuberculose e a lepra estão mais resistentes do que nunca aqui na Capital da República. Apesar da espionagem institucional sistemática e do policiamento abusivo há tiroteios, assaltos e homicídios praticamente na varanda do Judiciário e nas barbas da Lei. O Primeiro, o Segundo e o Terceiro graus competem entre si em fajutismo, as escolas são cortiços desconfortáveis e se cultua a ignorância por todos os lados, principalmente nas periferias que em nada se diferem das da Idade Média. Demências, aloprações e a inquietude hipocondríaca do rebanho diante da vida e das bactérias hospitalares… Na ante-sala dos médicos o poder das descaradas e demoníacas indústrias de medicamentos…

A máquina pública cada dia mais sonolenta… Covil e usina de melancolia… Uma grande família entediada pelo ócio burro e pela necessidade compulsória de cumplicidade entre os membros. Encubro-te e me encobres OK? Abraços, elogios, cochichos, troca de arranjos e de gratificações. Por mais modesto e suburbano que o sujeito pareça ser sempre têm um tio no Supremo, uma prima no Congresso, um familiar na Procuradoria Geral da República. Os carros impecáveis lotam os estacionamentos e as garagens. O aeroporto está sempre agitado e febril. Os vôos saem lotados todos os dias e para todas as direções. No saguão sempre se ouve alguém gritando no celular e se exibindo:

-Aqui é o assessor do Ministro tal! A secretária do Senador Y! O irmão do Líder do Partido K! O Coordenador do Programa Z!

Vão engravatados buscar um ofício ou um memorando no outro lado do país ou até no exterior. Ocultam-se nas desculpas das velhas e conhecidas “reuniões”, na balela das “consultorias” e nas famosas “supervisões” do nada.

A cidade está repleta de novos personagens. Cada governo traz os militantes de seu Estado e lhes dá uma chefia, um cargo, uma gerencia, uma aposentadoria, um DAS7. Já assisti esse ritual uma meia dúzia de vezes. Vieram os mineiros com o JK, os gaúchos com o Geisel, os cariocas com o Figueiredo, os maranhenses com o Sarney, os alagoanos com o Collor, voltaram os mineiros com o Itamar, os paulistas vieram em massa com o Fernando Henrique etc.

O Lula foi o mais eclético, trouxe gente de todo o país. E é engraçado ver esses neófitos apelidados de “gestores” chegando cheios de empáfia, arrogantes, repletos de sonhos, de autoridade e de pose, com a ilusão de que salvarão a pátria ou, pelo menos, a si mesmos, isto se souberem fazer “um pé de meia” enquanto dure o mandato de seu protetor. Alugam casas cinematográficas, camionetes, fazem academia, mudam o visual, fazem questão de conservar o sotaque, adaptam-se rapidamente aos novos salários, quase sempre cinco vezes maiores daqueles que ganhavam em suas províncias. Congestionam os cafés e os restaurantes caros e pagam por alguns pratos bem mais do que se pagaria por um similar em Paris. E não pensem que vão embora quando o governo muda. Não. Tornaram-se funcionários “estáveis” e chefões influentes. Nos quatro ou oito anos do governo que os trouxe, ganharam notoriedade e muito dinheiro, aprenderam o “caminho das pedras” e não saberiam mais viver lá no meio de seus iguais. Ficam por aqui, viciados ao poder, às grandes reuniões, às bajulações gratuitas e até juram amar esta cidade. Montam um negócio para suas mulheres e nos finais de semana vão aos Estados de origem visitar seus correligionários, fingir cidadania e honradez.

-Onde está o professor tal?
-Foi a Londres fazer pós-graduação…
-E a professora Y?
-Está em Genebra concluindo o doutoramento…
-E o diretor X?
-Está no exterior na reunião do J.16…
-Cadê o motorista do Ministro?
-Está estressado e foi à Caldas Novas repousar...

No trajeto que vai da Reitoria ao Restaurante Universitário duas ciganas com vestidos amarelos, sandálias armênias e lenços vermelhos na cabeça me propõem “la lectura de las manos”. Quase sucumbi à curiosidade de postar-me diante de um oráculo. Mas segui meu caminho como um samurai desvairado, logo atrás de um casal de estudantes de biologia que juravam e demonstravam um para o outro, em total deslumbre, que Brasília é uma grande festa.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. isso mesmo! brasília, grande esfinge entediada com tantos falsos sins. 24 horas por dia sob intensa atividade de lobby. delírios da cristandade pela nova jerusalém. límpido e ascéptico lugar onde todos desejariam estar. delírios combinados de são joão bosco, josé bonifácio, marechal floriano peixoto e do maçom jucelino kubitschek. paraíso da vida arregimentada. cidade dos seres no ápice da cadeia alimentar, o automóvel. de pessoas tensas, ansiosas e inseguras. quantos conflitos e aspirações que aqui chegam travestidos. candangos mortos-vivos amontoados em ônibus e muquifos. tecnoburocracia gozando de espaço, mordomias, regalias e vantagens. castas e preconceitos. notícias sobre o nada. agrobusiness de notícias. boataria e miragens. to see and to be seen. aqui deveria surgir o centro de uma nova civilização. se assim o for, aqui estou! para levar uma barricada desde dentro, tomá-la de assalto e talvez, construir algo sobre suas ruínas.

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