"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 1 de março de 2009

Os carroceiros e os patos do Parque Sara Kubbitchechck


Brasília, comparada com a maioria das grandes cidades brasileiras pode ser considerada ainda uma cidade jovem, púbere, adolescente, imatura, sem caráter e sem personalidade definida. Sua população se divide facilmente diante de uma barbárie ou de um crime. Diante de uma decisão judicial ou governamental e até mesmo diante da simples derrubada de uma árvore – por exemplo – pode-se ter a impressão de que a cidade alberga dentro de si um autêntico transtorno bipolar. O mesmo fato que causa indignação e choro na Asa Norte pode causar euforia e risos na Asa Sul, indiferença na população do lago e vice-versa.


É o que está acontecendo nesta última sexta-feira de fevereiro diante da notícia de que, na última madrugada, dois carroceiros roubaram uma família inteira de patos que vivia no Parque Sara Kubitchek. Entenda-se por “família inteira” a pata e seus oito patinhos. O pai, o pato – como sempre – estava ausente e salvou-se.


Os mais, digamos, “humanistas” ficaram do lado do carroceiro de sua prole e de sua fome secular, outros, mais simpáticos aos animais que aos de sua própria espécie, defenderam a pata e seus filhotes. Um dos ladrões disse materna e amorosamente à delegada, que sua intenção era apenas criar os filhotes na invasão onde vive com sua meia dúzia de crianças e ao redor de sua carroça. Neste particular, curiosamente, a cidade não se dividiu, foi unânime em supor que o que ele queria mesmo era banquetear os pobres bichos. A dúvida que ainda atormenta os dois lados é se ele iria fazer pato no tucupi ou, como o que a nobreza francesa costumava ir banquetear lá no Le cannard d’Ór, pato com laranja? Os mais grã-finos chegaram até a alertar a polícia para a possibilidade dos carroceiros estarem pensando em produzir meio quilo ou uns oitocentos gramas de foie gras. Mas isto é bobagem, pois como o furto aconteceu à noite, é provável que os gatunos nem tivessem lá muita certeza se estavam levando para casa uma família de cisnes, de gansos ou de marrecos. Só souberam que se tratava de uma família de patos quando foram capturados. A hipótese de que os ladrões soubessem que o ovo da pata é afrodisíaco, evidentemente, nem passou pela mente quase cartesiana da justiça.


Ezio Flavio Bazzo

2 comentários:

  1. Que bom descobrir que agora está em blog.

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  2. patos, patífes e metidos a tio patinhas. todas essas tribos se encontram por aqui. e... o quê teem para falar entre si? nada, porém... muito teem o que moralizar. daí tudo se transforma em miséria ressentida. até um singelo roubo se transforma em terrível atendado contra a sociedade. quantas famílias de patos, gansos, cisneis, pombos ou pardais terão que ser roubadas? para essa cidade sair da bipoladiridade conveniente e assumir o verdadeiro lado do muro para o qual ela foi pervertidamente criada: a casa do estado democrático da direita!

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