"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

terça-feira, 17 de março de 2009

A modernidade e nossos Pátios dos Milagres


Se você quer conhecer São Paulo – além dos shoppings, da Avenida Paulista, dos Jardins e da casta Uspiana circule das 06h00 às 08h00 da manhã aqui pelo centro. A imagem mais fidedigna – depois da Praça da Sé, evidentemente - você vai encontrar sob as marquises das Casas da Banha aqui na Praça Ramos. Hoje, segunda-feira, 16 de março, faltando cinco dias para o início do outono, contei 48. Quarenta e oito sujeitos enrolados em seus cobertores, papelões, plásticos, jornais e colchões ou, simplesmente debruçados sobre o calçamento. Entre eles haviam 3 cadeiras de rodas, quatro cachorros e cinco crianças. Quando as lojas começam abrir as portas vão acordando, limpando os olhos e iniciando uma luta terrível e interminável com os piolhos, as pulgas e os carrapatos. Recolhem suas tralhas e vão cambaleantes para as escadarias do Teatro Municipal que fica bem em frente, onde à noite, algum palhaço vai divertir a burguesia ou alguma troupe intelectualizada vai fazer demagogia com os textos de Brecht ou de Ibsen. Um carro da polícia está estacionado perto dali. O movimento de pedestres aumenta de um instante para outro e aqueles homens que ficam na Rua Conselheiro Crispiniano esquina com a Barão de Itapetininga, sim, aqueles velhotes miseráveis com cartazes no peito e nas costas anunciando que compram ouro, platina e até diamantes vão se posicionando ao longo das paredes, como espantalhos.

O que é a cidadania? É a compulsão por vomitar sempre que se está diante de um dos tais “homens públicos”.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. visitando a famigerada e móbida "praça do compromisso" - aquela onde playboizinhos de brasília assassinaram queimado o índio galdino dizendo que o confundíram com um mendigo - me veio à mente a história daquela empregada doméstica espancada e assaltada por outro grupo de playboizinhos brasilienses que justificaram sua barbárie dizendo que a confundiram com uma prostituta! indígenas, mendigos, empregadas domésticas e prostitutas! pessoas intermediárias e fantasmáticas? sobrevivendo como podem, sendo assassinados e espancados nas barbas dos palácios do poder. indiferença do "homens públicos" e joguetes mortais para seus filhos acépticos sociais e carniceiros individuais? que do vômito geremos monstros contra essa civilização de manicômios, prisões e conventos.

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