"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

segunda-feira, 16 de março de 2009

A kent´annos! (Que você viva cem anos!)


São Paulo, 15 de março de 2009. Já nos muros do Cemitério, os que ficam pelo lado da Consolação, duas pichações emblemáticas. Uma exigindo a legalização do aborto e a outra literalmente assim: “o amor é importante, porra!”.

Nos degraus de entrada três punks em postura meditativa, dois caras e uma mulher. Atravesso as vias principais, entro pela esquerda, faço umas manobras em ziguezague até chegar aqui em frente ao suntuoso mausoléu da família Siniscalchi, bem na esquina da Rua 35 com a 37. O monumento em mármore gelo e vitrais azuis é a réplica de uma catedral européia – provavelmente da Notre Dame. No alto de seus dez ou doze metros, duas torres góticas (góticas?). Leio a placa que fica no rodapé onde diz que foi feita ou importada pela marmoraria J. Savoia. Nos fundos dela, por ironia, um frango preto, com fitas também pretas amarradas às pernas cisca tranquilamente como se estivesse lá na chácara da mãe Joana. Avanço mais uns cem metros até chegar ao exagerado e também suntuoso monumento erigido para abrigar os ossos do Comm. (esse Comm deve ser de comendador) Ermelino Matarazzo. O Comm e o Conde seriam a mesma pessoa? Lembro do frivolamente do Conde de Lautrèamont. Construído quase na esquina do cemitério esse soberbo bloco de concreto, mármore e bronze é um signo da soberba e da afronta secular dos estrangeiros contra os tupiniquins. Silencio. Parece não haver ninguém vivo por aqui. Mas só parece. De repente, uns suspiros vindos detrás de umas lápides. Tem alguém trepando por aí? – tive o ímpeto de gritar. Logo apareceu a cabeça de um homem, depois a de uma mulher. Um casal jovem de mendigos. Ela com uma saia vermelha e com as banhas das tetas e da barriga para fora. Ele, com um calção também vermelho veio agressivamente pedir-me um cigarro. Não acreditou que não fumo. Coçou o saco e moveu-se de maneira suspeita. Vi nos seus olhos uma longa ficha policial. A mulher veio até ele com uma garrafa na mão. Pressenti o perigo. Minha única defesa seria a caneta Bic. Assumi a postura clínica. Recuei sem deixar visível minha ansiedade. Meti-me por entre as tumbas e os mausoléus. Desapareci. Só fui relaxar quando já estava lá pelos lados do Cemitério Protestante e o do Carmo. (Aqui, pouca gente sabe, são 3 cemitérios em 1).

Túmulos de todos os tamanhos, cores, formatos. Não pode ser comparado ao Père Lachaise, mas em termos de arte funerária é respeitável. Os nordestinos e os portugueses que trabalham aqui deixam tudo impecável. Duvido que os inquilinos tenham alguma queixa. São inúmeras as estátuas e esculturas em bronze sobre as lápides, cada uma com seu significado explicito ou secreto. Uma mãe segurando o filho morto nos braços - por exemplo. As asas de um anjo fraturadas; diversas estatuas com a mão na face, o gesto clássico da melancolia; uma moça elegante debruçada sobre um caixão; o Cristo com o dedo em riste; cenas mórbidas do calvário; uma escultura de homem onde não há ventre; os cinco anjos femininos no jazigo da família Simonsen. Jazigos perpétuos! Descanso eterno! Aqui jazem as cinzas do fulano de tal! Que palavreado esquisito. Os pés das esculturas. Sempre avalio a competência dos escultores pelos pés e pelas mãos de suas obras. Não é fácil reproduzir as antigas garras dessa espécie.

Um enxame de mosquitos levantou vôo de um castiçal apodrecido. Um deles já me envenenou as costas. Bem que poderia ter trazido repelente. Se a dengue comum já é um perigo, a de cemitérios deve ser fatal. Muros com arame farpado em espiral, tipo aquele dos campos de concentração ou da Embaixada Americana em Brasília. Seriam para conter os vivos ou os mortos? Pequenos e sutis sinais de macumba aqui e acolá que só são percebidos e notados por um expert – me explicou o coveiro. Fotografo uma estátua de mulher em mármore branco, numa posição similar à do Pensador de Rhoden. Pensaria em que? O português prolixo que trabalha há mais de meio século aqui dentro relatou-me o caso recente da florista – sua colega – que meteu bala de 38 na barriga de um homem. Nunca mais a viu. Está presa. Vale a analogia entre o presídio e o cemitério. De vez em quando um susto. Um pássaro ou um necrófilo surge do nada. Um beija-flor lambe a flor deixada por um anônimo entre os dedos de uma madona em mármore. Sobrevoa como um raio outros mausoléus e volta em seguida, voraz e decidido a saciar-se. Silêncio sepulcral. Leio os sobrenomes nos monumentos: Domenico, D´andratta, Gurzoni, Mascaro, Capasso, Gagliotti, Monegaglia... Estou no Brasil ou na Itália, porca madonna?

A escultura enigmática no túmulo da Família Botti. Um tapete de musgos naturais e verdes ao lado da muralha. O bloco de mármore e granito sóbrio abriga os restos mortais e editoriais do senhor José Bento Monteiro Lobato. Mais acima o da Tarsila do Amaral. O da família Curry é uma obra prima. Há por aqueles lados um Jesus morto, com as feridas visíveis e sua mãe debruçada sobre ele num gesto contra e anti-édipo. Uma moça em postura zen no mausoléu da família Abdalla Azem. E na tumba do Dr. José Vieira Couto Magalhães, um quadro em alto relevo, também em bronze leva o título: O selvagem. Nele aparece um indígena remando solitário seu barco.

Identifiquei uma única escultura repetida em todo o acervo deste cemitério. Trata-se de uma mulher com algo nos braços que de longe parece ser um violino, mas que de perto se constata ser um crucifixo. Pelas datas dos nascimentos inscritas nos jazigos aqui há gente de todos os signos. Da hora que entrei aqui, até agora, os sons e os barulhos foram mudando. Vejo chapéus se movendo lá longe entre símbolos sacros e mortuários, o ruído dos ônibus lá fora, das rodas do carrinho dos coveiros e o cochichar de uma oração interminável que alguém faz para seu morto. Dou por terminada esta visita e tomo o rumo da saída recitando para mim mesmo a conhecida saudação comum lá na velha Sardenha: A kent´annos! (que você viva cem anos!)

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. do deus egípcio bes, do concurso do sono e do desejo de polyphilo (1499), do adormecido que contempla uma paisagem ideal de kulliyat ta'bir khu'ab, do império dos sonhos sufis (vinho e mulheres), da bela adormecida de gustave doré, de hypnos irmão de tanatos, dos cartões de sonho da loteria mexicana, ou das houris (virgens de olhos negros à espera dos mártires islãmicos para lhes dar prazer), ezio, eis a dádiva da morte.

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