"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Viver faz mal para a saúde


Não é novidade para ninguém que uma das obsessões de nosso tempo é a longevidade. Mesmo aqueles que não sabem o que fazer num simples sábado à tarde e que são o tédio ambulante, mesmo eles lutam com todas as forças para durar. Mas são muitos os obstáculos e as conspirações em contrário. A última notícia que recebi foi me prevenindo de que o bacon e o presunto podem provocar leucemia. Ontem me mandaram uma nota demonstrando que o leite provoca câncer na próstata, e na semana passada uma tese que demonstrava ser a garrafa plástica da água mineral um veneno mortífero. Já me alertaram de que o uso dos adoçantes artificiais está relacionado às demências, o café aos distúrbios do sono e o vinho à pressão alta e às tremedeiras do Parkinson. O chá verde dispara o coração de qualquer um, o cigarro apodrece o pulmão, a cachaça destrói o sistema nervoso central, os tomates são autênticas cápsulas de inseticidas, a pasta de dentes é pura química, o chocolate é basicamente manteiga e tem uma fórmula monstruosa, sem falar da cadaverina presente em todas as carnes e que leva os carnívoros à idiotia. Consumir açúcar, sal, refrigerantes, ovos, gorduras, farinhas etc. é obesidade, diabete e impotência certa. E o pior é que eu, do alto de meus 59 anos, acredito em tudo isso. E não só acredito como tenho certeza que quase tudo o que ingerimos no nosso dia-a-dia é impróprio, maléfico, quase putrefato e mais, que até mesmo viver faz mal para a saúde. Talvez só o jejum absoluto nos poupasse temporariamente da ruína e da devassidão física e mental. Esse tema: trágico e cômico - lembra a observação de Cioran, para quem os transtornos da velhice são uma espécie de autocrítica da natureza.

Ezio Flavio Bazzo

2 comentários:

  1. hahahaha...fabuloso! eis o mundo de uma espécie cansada de viver. nos anos 60, a liberdade sexual - hoje... a monogamia radical; anos 70, psicodelia lisérgica - hoje emagecedores e anabolizantes; anos 80 o lamentável último suspiro da velha santíssima trindade do sexo, das drogas e do rock'n roll. hoje vivemos sob a mão de ferro dos possuidores e das possuidoras do pathos do "em vão". o que aconteceu com a ironia? a vida se tornou um comédia pastelão? talvez as gerações atuais estão realizando, pervertidamente, o sonho de liberdade de 68: em um panfleto de pacote turístico para aposentados podemos ler as seguintes palavras:por baixo do asfalto a praia...

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  2. Essa crônica sempre me diverte. Quando um professor me disse que começamos a morrer quando nascemos foi um choque pra mim. Coisas tão simples nos chocam.
    Taí uma trilha sonora em outras palavras pra sua crônica:



    Menos

    Porcas Borboletas



    Eu sei
    Eu sei que não era pra eu ser assim
    que eu devia tomar as doses nas horas certas
    Eu sei que eu devia dormir boas noites de sono
    e que eu devia fumar menos
    escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis
    e perambular menos na rua quando todo mundo já foi
    e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços
    e beber menos
    e amar menos
    eu devia parar


    e pensar menos
    eu sei que eu devia pensar menos
    e falar menos
    eu sei que eu devia falar menos
    pra viver mais
    eu sei que eu devia viver menos
    mas eu não sei viver menos

    http://letras.mus.br/porcas-borboletas/1600551/

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