"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 19 de outubro de 2008

Trem de Doido


Visitar o Hospital Colônia de Barbacena é um projeto antigo, anterior ao dia em que Basaglia o considerou uma instituição de horror, uma Salpetrière tupiniquim ou uma paródia de Auschuwitz. Praticamente durante cem anos, sob o pretexto da saúde ou da doença mental serviu como calabouço. Bêbados, infiéis, marginais, bandidos, epilépticos, indesejáveis e até loucos etc eram enviados para cá, onde permaneciam até a morte. O famoso "Trem dos doidos" tinha um vagão especial para eles e os recolhia nas estações de todo o Estado. Chegando aqui, numa parada construída estrategicamente bem em frente ao hospício, subiam o barranco que os conduzia ao confinamento, amarrados uns aos outros, sob o olhar maligno de pena e de curiosidade da população local. Instalada no alto da Serra da Mantiqueira, conhecida como a "cidade dos loucos", com um clima agradável e puro, silêncio e neblina, Barbacena nos dá a ilusão momentânea de ser uma espécie de Shangri-lá. Ou isto já seriam os primeiros sintomas?

O que veio a ser conhecido por Hospital Colônia de Barbacena havia sido até antes de 1900 uma sofisticada casa de repouso e de veraneio comparada às de Campos de Jordão e às de Petrópolis aonde a elite e os barões da época iam em busca de saúde, lazer e de ócio. Dizem que até Floriano Peixoto, então Presidente da República esteve por aqui se recuperando de um "colapso nervoso". Com o crash da bolsa de valores da época, foi à falência, e em seu lugar surgiu o mal versado hospício que, curiosamente, estava em terras do senhor Joaquim Silvério dos Reis (o delator) e localizado numa região conhecida por Morro da Forca. Esse hospital que, como vemos, tinha tudo para dar errado e que muitos vieram a considerá-lo um inferno terrestre, chegou a ter mais de quatro mil internos que dormiam no chão, em montes de palhas como suínos. Muitos dos que morriam (em média dois por dia) tinham seus corpos fervidos em tambores de gasolina para limpeza dos ossos e em seguida os esqueletos vendidos por cinqüenta cruzeiros/cada às faculdades de medicina da região. Detalhe: esse ritual macabro era executado diante dos outros internos. (Barbacena, XX-X-2008)

Depois que o Projeto de Lei 3.657 de 1989, propôs o fechamento gradual dos manicômios no país, o Hospital Colônia de Barbacena foi passando por algumas reformas, digamos, humanizantes. Melhoraram as condições internas e foram criadas as Residências Terapêuticas, cada uma com oito ou dez pacientes. Dizem que há umas vinte e tantas delas espalhadas pelas colinas da cidade, onde os ex internos vivem medicados, com uma pequena mesada e alguem que os monitora. Os duzentos e tantos que, depois de décadas de internamento, perceberam que a loucura aqui fora é pior ou igual que a lá de dentro, não deram conta de gerenciar suas próprias vidas e voltaram. Permanecem confinados num cotidiano de cão só esperando a morte chegar. Na unidade do Bairro Floresta foi montado recentemente, meio hipócrita e meio demagogicamente o Museu da Loucura, com fotos, documentos, algemas, grades, seringas, roupas, instrumentos de eletro choques e outras provas da barbárie clinica que caracterizou seu século de existência. Olhando enojado para tudo isso, fico tentando lembrar quem foi o cínico e o crápula que disse, não faz muito, que o que o Brasil tem de melhor é seu povo.

Barbacena marcou realmente lugar na história do país, e não foi apenas por ter sido rotulada como a Cidade dos Loucos. Ter dado sumiço à nação dos índios Puris e acolhido à imigração italiana – por exemplo – foi o que possibilitou que hoje possamos devorar um delicioso nhoque no Gino's Candelabro. Além disso, cinco do bando dos Inconfidentes eram daqui e uma centena de soldados barbacenenses foi morrer como bode expiatório na guerra do Paraguai. Santos Dumont, aquele que tornou realidade o sonho de Ícaro e que se suicidou com uma gravata num hotel de Santos nasceu logo ali na Fazenda de Cabangu. O traidor Silvério dos Reis era dono de praticamente todas estas terras; Um dia após o esquartejamento de Tiradentes, Barbacena amanheceu com um braço daquele dentista prático dependurado num poste. A caça aos comunistas, nos anos setenta, teve o apoio irrestrito das autoridades daqui; O francês George Bernanos viveu e morreu nas redondezas. O chato Guimarães Rosa dedicou umas linhas ao Trem de doidos e o Santo Machado de Assis fixou residência ao seu Quincas Borba nesta urbe. Aliás, quando retorno para o hotel, à noite, sob a chuva e a neblina, com minha sombra se esgueirando pelas paredes das casas e me deparo casualmente com algum cão lambendo um osso faço questão de indagá-lo: e aí? Como vai Quincas Borba. Às vezes tenho a nítida sensação de ouvi-lo ironizando-me com a velha e reacionária frase: ao vencedor as batatas!

O que realmente uma cidade tem de melhor são sempre seus subterrâneos, seus olvidos e as coisas que apodrecem lentamente no fundo de uma amnésia ou mesmo de uma recusa generalizada. Pouca gente sabe, por exemplo, que o padre Justiniano da Cunha Pereira publicou em 1838, aqui em Barbacena, uma comédia intitulada Clube dos Anarquistas. Tampouco é de conhecimento da grande maioria que, no cemitério que fica nos fundos da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte " igreja pintada pelo alemão Moritz Rugendas" além das ossadas da Baronesa do Carandahy e as do Comendador Urbano Augusto trabalha um singelo jardineiro que diz ser pianista. Com mais de sessenta e quatro anos, aquele senhor que deambula todas as manhãs por entre os mausoléus com sua vassoura e seu rastelo jurou-me que é músico, e dos melhores da cidade. Com medo que eu desconfiasse de sua sanidade mental, ou de passar por mais um delirante deu-me detalhes de seu piano e relacionou as quarenta e tantas partituras que executa. Além disso, queria a todo custo levar-me até sua residência para demonstrar-me o que dizia com uma sonata de Chopin. Sugeri-lhe que deixasse a vassoura e a enxada de lado e instalasse seu piano aqui no meio das tumbas. Qual defunto não gostaria de ouvir uma Polonaise lá pelas cinco horas da tarde?

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. loucura, passageira e maquinista do "trem de doido"? trem bala ou maria fumaça? velocidade ou lentidão? paranóia ou metanóia? parece não haver mais espaços no mundo. a segregação vasta e completa está próxima: ônibus espacial de doido. colônias siderais para lunáticos em geral. por que houve um tempo em que os terrestre entendiam a viagem, fosse ela intencional ou não. no oriente médio dos derviches, quanto menos "razão" mais se aproxima da santidade. rachiche, maconha e vinho eram o transporte. virtualmente impossível se manter a sanidade no sedentarismo puritano ou reformador. já os insanos de nascença recebiam cuidados especiais. até eram admirados. santos indefesos. porém, nenhuma nostalgia por possibilidades perdidas. nenhuma sensação nauseabunda de romantismo. subterrâneos, sim. apenas um modelo de cognição.

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