"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Em defesa dos filhos de Caim


Nas últimas semanas, aproveitando o chamuscamento dos azulejos do Athos Bulcão nas paredes da igrejinha da 307/308 a cidade tem expressado abertamente seu nojo e sua cólera contra os mendigos. Algumas beatas chegaram mesmo a lembrar o assassinato cruel do índio Galdino, outros mencionaram as “limpezas” históricas que já foram realizadas no Rio, em SP etc., e os mais eruditos rememoraram a Paris do séc. XVII quando eles eram considerados filhos de Caim e mantidos fora dos muros da cidade. Apesar de todos os argumentos higienistas, há uma injustiça e uma arrogância desmedida nesse nosso descaso e nessa nossa indiferença. Humilhados nas escadarias dos mercados, nos fundos dos restaurantes, nos semáforos, nos terrenos baldios onde acampam e apodrecendo literalmente diante de nossas casas, só lhes faltava mesmo a proibição de freqüentar os pátios das igrejas onde costumam implorar migalhas e centavos para comprar um osso ou mesmo um copo de cachaça. Vagabundos? Preguiçosos? Cachaceiros? Irresponsáveis? Aqueles que pensam assim, que desçam de suas coberturas fiquem um dia sem comer, sem escovar os dentes e saiam em busca de um emprego para ver o que acontece. Além disso, existe um argumento muito mais terrível para calar os queixosos: eles são hoje o que nós fomos ontem. Muitos de nós também chegamos aqui nesta cidade sem uma pedra onde repousar a cabeça. Enfim, como dizem os esotéricos e os próprios cristãos: se você não abrir seu coração hoje, amanhã algum cardiologista terá que fazê-lo.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. me junto à sua alcatéia, caro Ezio, meu amigo virtual e virtuoso. quando deixei minha casa para sair em viajem, vivi algum tempo nas ruas. sei muito bem o que é ser um mendigo. nesse meio tempo estudei, de modo autodidata, filosofia política ocidental, e sei que até o velho marx odiava os mendigos e os vagabundos. que horrível ficção é essa, de que o trabalho dignifica o ser humano? quanta dignidade há em ser vigia de carro, engraxate, balconista, garçon ou outro tipo de escravo para colarinhos branco? quanta dignidade há em trabalharmos em empregos que odiamos só para comprar merdas inúteis? quanta dignidade há em ser criado pela tv somente para acreditar que um dia seremos estrelas de cinema ou milionários? Que os mendigos tomem consciência disso e fiquem muito, muito putos mesmos.

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