"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

domingo, 27 de julho de 2008

Dialética da natureza


No princípio, sempre que passeava com meu cachorro pelas entre quadras ficava um pouco intimidado ao ver os donos de outros animais levando luvas e um saco plástico com os quais recolhiam obsessivamente seus excrementos. Aquilo sim era um exemplo de cidadania - murmurava sempre o porteiro do prédio vizinho e quando eu lhe dava ouvidos mais do que devia, descambava a falar que na Alemanha a multa para quem deixasse uma cagada na grama era de duzentos euros. Só comecei a ficar mais relaxado e ter uma visão mais autêntica sobre minha pseudo-negligência quando percebi que atrás de meu cachorro se formava diariamente uma fila imensa de pássaros: bentevis, rolinhas, joão-de-barro, pardais, sabiás e até mesmo um pica-pau daqueles de peito amarelo e que todos se digladiavam vorazes para banquetear aqueles biscoitos fumegantes que meu lhasa ia soltando pelo caminho. Ora! A partir daí foi fácil para atingir o insight que me faltava. Eu e meu cão é que éramos os verdadeiros cidadãos! A dupla politicamente correta! Nós é que estávamos sendo úteis, não apenas para com o IBAMA, mas principalmente para com o ecossistema. Pensar com a própria cabeça é dar-se a chance de descobrir que, às vezes, os remédios importunam mais do que a própria doença.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. certa vez, passando em frente à horripilante funai, parei para conhecer um indígena que vendia ervas medicinais. enquanto eu conversava com ele sobre a "mouramia" - erva árabe talvez equivalente à sálvia -, um cachorrinho deixou um pequeno montinho ali em frente. em seguida o segurança gritou com o dono para limpar aquela merda. o xinguano se virou para mim e disse: "esses brancos se acham cilizados. meu povo (- que foi nômade um dia -) sempre andava com sementes nas mãos, para quando cagarem plantarem ali mesmo (- em cima do montinho -) daí quando voltavam, depois de vários meses, a árvore já estava dando frutos. ninguem passava fome". daí respondi: é, a civilização é mesmo muito primitiva.

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