"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Maldiçao Eterna


Ontem pela tarde, no auge dos trinta e três graus, um senhor barbudo, maltrapilho, com uns 80 anos, ia de um lado para outro na plataforma superior da rodoviária, fazendo breves paradas para gritar: Maldição eterna para o Congresso Nacional! Maldição eterna para o Congresso Nacional! Cumprimentei-o com curiosidade. Ele segurou-me pelo braço com simpatia e declamou num só fôlego: Pareço ser um pobre velho, não é? Pois saiba que Ibsen apaixonou-se por uma mocinha aos 76 anos; que Goethe escreveu seu segundo Fausto aos 82; que Catão casou-se e que teve um filho aos oitenta; que um velho da Ceilândia está tendo uma terceira dentição, que Verdi compôs seu Falstaff e que Ticiano pintou sua Apresentação ao templo já com mais idade do que a minha. Bateu-me gentilmente nos ombros, deu meia volta, gritou novamente: Maldição eterna para o Congresso Nacional e desapareceu.

Ezio Flavio Bazzo

Um comentário:

  1. ezio, pelo modo como este senhor lhe apareceu, e o que ele lhe dizia com extrema lucidez - partindo da inspiração de meu ecumenismo herético -, penso que talvez você tenho recebido a visita do khidhr. estranha entidade pré-islâmica que ajuda as pessoas a encontrarem seu próprio caminho, tanto literal quanto metaforicamente. khidhr significa "verde", cor que, até para os muçulmanos, é referência ao frescor da juventude. ah, ele é muitas vezes referido como "o santo islâmico patrono da cannabis".

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