"Meus textos são como o pão do Egito, a noite passa sobre eles e já não podes mais comê-los" (Rumi)

quinta-feira, 7 de abril de 1988

Vagabundo na China



Portando uma câmera Canon e diversas lentes, seu olhar arguto, seu sentir trabalhado e sua forma peculiar de interpretar o mundo, Ezio Flavio Bazzo foi até a China em 1991, como vagabundo – aquele que não tem compromisso nem consigo mesmo – e nos trouxe este livro exótico, no formato e no conteúdo.

- Seria um tablóide com notícias sobre o país de Mao? - Seria um livro que passa em revista toda a concepção histórica deste mundo monumental, assim num piscar de olhos? Seria um guia de viagem para pessoas mais exigentes? Seria um documentário para o mundo ou seria um livro para ninguém?

O livro é tudo isto reunido. Algo meio indefinido que contém impressões, sensações, referências, pinceladas, cliques que o autor parece ter feito para guardar para si, mas os divide conosco. Pequenas doses de uma China que ninguém viu, episódios que ganham significado no relato pela forma como são apresentados.
No formato, se apresenta maior que os livros comuns, suas orelhas são de abano, seu texto está divido em duas colunas, está ricamente ilustrado com fotos do autor e antecedendo a folha de rosto, o título da obra aparece desenhado em ideogramas chineses. Abaixo, uma nota bazzoniana, completamente cínica: Título traduzido para o Chinês por M... Uma chinesa anônima. Na abertura, um pensamento de Chateaubriand – As pessoas que nunca navegaram têm dificuldade para entender os sentimentos que se experimenta quando, do convés do navio, já não se vê mais do que a face austera do abismo.

Assim, ele nos apresenta à China.

No recorte, é o livro que mais revela o autor, seu sentir incomum, suas experiências simples e plenas de significados, a fala e o olhar do homem que transita bem pelos planos heterogêneos da realidade e da alma e desliza sorrateiramente para o entendimento maior da vida, onde tudo se aproxima e se assemelha. É a câmera virada para si mesmo mas cercada das cores da China, do existir deste povo que os ocidentais jamais compreenderão suficientemente.

O livro nos leva embora e só nos traz de volta no que ele denominou de “epílogo inesperado” onde recebemos de presente uma entrevista que Emil Cioran concedeu a um jornal francês. Cioran, considerado pelo autor, o filósofo mais interessante da atualidade, fecha o livro, assim, sem mais nem menos. Como se tudo, de fato, estivesse interligado, e não percebêssemos, este é um livro que nos leva com maestria para as dobras da nossa emoção introspectiva – esta grande e maravilhosa viagem!

Maria Helena Sleutjes